O meu chefe (lol) marcou-me num daqueles desafios de partilhar 10 álbuns de música que goste e marcar mais 10 amigos. Por incrível que pareça é-me mais difícil arranjar as 10 pessoas que os álbums...
26.4.20
23.4.20
numa noite de inverno.
Sinto o carinhoso cambalear do carro e recosto-me. Entre as lágrimas cristalinas que rolam pelo vidro, perco-me no tracejado hipnótico do asfalto que acompanha os meus pensamentos isolados. A estrada envolta de obscuridade parece infinita, também ela sem saber para onde vai, apenas que tem de ir. Estou estranhamente desperta, ao oposto de todos os outros. Não sei há quanto tempo me encontro nesta viagem, as horas descarrilam em noites somadas. Noites que se perseguem umas atrás das outras sem qualquer alvor a interrompê-las. Persisto absorta entre reflexos e sombras. A luz decadente dos cadeeiros confere ao interior do carro um ar sinistro de formas abstractas que interagem de maneira absurda com o meu subconsciente. Subitamente o meu lamento interno é rasgado por um ruído estrondoso. Um carro que ultrapassa. Concentro-me na ilusão das suas rodas, sem conseguir confrontar quem se encontra no interior. Julguei que todos dormiam. O silêncio adensa e retorno à solidão que me é intrínseca. O vidro enregelado desencadeia cicatrizes de arrepios pelos braços acima e aconchego-me ainda mais neste abraço vazio. O dilúvio exacerbado deforma com violência o exterior, desfocando o meu olhar e, por conseguinte, a minha mente. Talvez o destino esteja próximo, no entanto permaneço à deriva sem existir tempo que o dite. O percurso continua, mas assombra-me a ideia que talvez esteja apenas estagnada neste sítio. Olho inquisitivamente para o lugar do condutor, com algum receio de que tenha cedido à fadiga. O que vejo é apenas nevoeiro do outro lado.
22.4.20
Pronto, é oficial.
Atingi o meu pico de inutilidade nesta quarentena: instalei o bumble pela primeira vez. *Biggest facepalm on earth*
21.4.20
Bad day.
Hoje foi um dia intenso... A primeira vez que perdi alguém da minha idade foi absolutamente avassalador. Ainda me sinto confusa quanto ao que sinto para além da tristeza óbvia. Tudo isto fez-me reflectir sobre mil e uma coisas e deparar-me com mil e uma perspectivas. Mais do que nunca só me apetece ter um abraço dos meus pais, a saudade torna-se cada vez mais inconcebível...
19.4.20
Da gastronomia saudosista.
E pensava eu que durante este mês de isolamento a minha saúde mental até estava muito bem dadas as circunstâncias... Até ao momento em que os meus vizinhos do lado decidiram cozinhar memórias. Ontem foram pipocas que juro que cheiravam exactamente ao mesmo que as do cinema do Porto onde fui a última vez com os meus irmãos; Hoje o cheiro que vem de lá é o mesmo que emanava do bar da secundária quando havia panikes acabadinhos de fazer! Ai.
18.4.20
Ainda sobre o corona e a minha triste vida:
Parece um dejá vù aos tempos de adolescência em que em vez de sair, fazer amigos, etc. ficava horas intermináveis a ler e a minha vida social ficava-se pelas personagens inventadas dos livros...
10.4.20
...
O mais triste desta quarentena é aperceber-me que a minha vida não mudou tanto quanto isso... Basicamente só não vou trabalhar nem vejo a minha família, o resto é exactamente igual...
8.4.20
27.3.20
Everyday is silent and grey.
De súbito, a aurora dilacera-me. A minha cabeça lateja sem cessar um dia que seja. Recordo com curiosidade e alguma saudade todos os sonhos que me envolveram enquanto os olhos me trancavam da realidade. Abstracções umas atrás das outras, sinto-me perdida no fascínio e anseio voltar para a minha utopia. Ouço a gata a arranhar o novo dia e sei que tenho que fazer o mesmo. Rendo-me à minha rotina pois sem ela ainda é mais difícil concentrar-me nesta árdua missão de acordar. Apesar de tudo, de manhã é quando sinto mais energia ao contrário de outrora, em que as únicas forças que me pertenciam eram concentradas na vontade de não existir.
Contudo, no decorrer do dia, sinto-me a desvanecer. Um ardor no olhar persegue-me continuamente, desejo com intensidade voltar à penumbra para não ter fazer este esforço hercúleo de manter os olhos abertos. A realidade à vista. O meu coração balança com a precaução de uma criança a andar de baloiço pela primeira vez, no entanto, perde-se numa confiança exasperada ao mínimo movimento que faço.
Lá está ele outra vez. O pôr-do-sol. Todos os dias tenho finais novos. Por vezes, tímido, vai espreitando entre nuvens. Outras apresenta-se em todo o seu fulgor e luminescência. Não tenho preferência pelo seu visual, apenas quero acompanhar o seu desaparecer. Lento e rápido em simultâneo, tão supérfluo para todos, mas deixando saudade no seu rasto. Tal como o meu.
26.3.20
1.
Teresa sentia-se frequentemente só. Viúva e com a família distante, vivia os seus dias de reforma a cuidar das orquídeas que coleccionava e de que tanto gostava. Nutria por elas um grande carinho e era com dedicação afincada que tomava conta de seres tão frágeis. Ainda assim, sentia o peso da solidão. Apesar dos prolongados 67 anos de vida, ainda sentia uma força jovial dentro de si e sabia que não podia desperdiçar tal privilégio confinada entre aquelas paredes rugosas. Obrigava-se a sair todas as manhãs para comprar o jornal, ritual que mantinha mesmo depois de o marido falecer. Era com ele que partilhava sempre as notícias não muito interessantes da terra pacata em que viviam. Valorizava muito as suas manhãs, de janela escancarada, a sorver o café quente e a sentir o papel áspero do jornal.
Num dia vulgar como todos os outros, após cumprir a sua rotina matinal, deu consigo a olhar para um anúncio em particular. Uma palavra incompreensível, possivelmente estrangeira, prendera-lhe a atenção. Uber. Depois de entender do que se tratava, apercebeu-se que era exactamente aquilo que lhe faltava na sua existência. Não tanto pelo dinheiro, pois a reforma e o que o marido lhe deixara eram suficientes até ao fim dos seus dias, mas sim pela vontade colossal de estar com pessoas. Não via qualquer obstáculo a tal possibilidade: era moderna e sabia desenrascar-se bem com a tecnologia actual, além disso adorava conduzir o seu citroën cor de musgo e conhecia bem a localidade e os seus arrabaldes. Desta feita, com algum entusiasmo e fervor, decidiu inscrever-se.
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