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23.4.20

numa noite de inverno.

Sinto o carinhoso cambalear do carro e recosto-me. Entre as lágrimas cristalinas que rolam pelo vidro, perco-me no tracejado hipnótico do asfalto que acompanha os meus pensamentos isolados. A estrada envolta de obscuridade parece infinita, também ela sem saber para onde vai, apenas que tem de ir. Estou estranhamente desperta, ao oposto de todos os outros. Não sei há quanto tempo me encontro nesta viagem, as horas descarrilam em noites somadas. Noites que se perseguem umas atrás das outras sem qualquer alvor a interrompê-las. Persisto absorta entre reflexos e sombras. A luz decadente dos cadeeiros confere ao interior do carro um ar sinistro de formas abstractas que interagem de maneira absurda com o meu subconsciente. Subitamente o meu lamento interno é rasgado por um ruído estrondoso. Um carro que ultrapassa. Concentro-me na ilusão das suas rodas, sem conseguir confrontar quem se encontra no interior. Julguei que todos dormiam. O silêncio adensa e retorno à solidão que me é intrínseca. O vidro enregelado desencadeia cicatrizes de arrepios pelos braços acima e aconchego-me ainda mais neste abraço vazio. O dilúvio exacerbado deforma com violência o exterior, desfocando o meu olhar e, por conseguinte, a minha mente. Talvez o destino esteja próximo, no entanto permaneço à deriva sem existir tempo que o dite. O percurso continua, mas assombra-me a ideia que talvez esteja apenas estagnada neste sítio. Olho inquisitivamente para o lugar do condutor, com algum receio de que tenha cedido à fadiga. O que vejo é apenas nevoeiro do outro lado.

26.3.20

1.

Teresa sentia-se frequentemente só. Viúva e com a família distante, vivia os seus dias de reforma a cuidar das orquídeas que coleccionava e de que tanto gostava. Nutria por elas um grande carinho e era com dedicação afincada que tomava conta de seres tão frágeis. Ainda assim, sentia o peso da solidão. Apesar dos prolongados 67 anos de vida, ainda sentia uma força jovial dentro de si e sabia que não podia desperdiçar tal privilégio confinada entre aquelas paredes rugosas. Obrigava-se a sair todas as manhãs para comprar o jornal, ritual que mantinha mesmo depois de o marido falecer. Era com ele que partilhava sempre as notícias não muito interessantes da terra pacata em que viviam. Valorizava muito as suas manhãs, de janela escancarada, a sorver o café quente e a sentir o papel áspero do jornal. 
Num dia vulgar como todos os outros, após cumprir a sua rotina matinal, deu consigo a olhar para um anúncio em particular. Uma palavra incompreensível, possivelmente estrangeira, prendera-lhe a atenção. Uber. Depois de entender do que se tratava, apercebeu-se que era exactamente aquilo que lhe faltava na sua existência. Não tanto pelo dinheiro, pois a reforma e o que o marido lhe deixara eram suficientes até ao fim dos seus dias, mas sim pela vontade colossal de estar com pessoas. Não via qualquer obstáculo a tal possibilidade: era moderna e sabia desenrascar-se bem com a tecnologia actual, além disso adorava conduzir o seu citroën cor de musgo e conhecia bem a localidade e os seus arrabaldes. Desta feita, com algum entusiasmo e fervor, decidiu inscrever-se.

21.1.18

"write a love letter to a person you dislike."

Tens permanecido na minha mente como uma droga e, no entanto, sinto-te cada vez mais longe. Essa fuga constante que me atrai ainda mais. És uma escassa memória que me repudia, mas ao mesmo tempo me faz amar-te de maneira tão intensa. E dou por mim a sentir um certo asco de te querer tanto, de tanto que me irritas mas alteras todas as sensações normais. Transformas os meus pensamentos a teu belo prazer e contra a minha vontade. E sempre que tento evitar o confronto visual entre nós, sinto-te ainda mais perto de mim, como se te tornasses numa figura disforme, numa sombra, que me penetra e me faz sentir arrepios indefinidos. Em suma, incutes em mim um sentido de bipolaridade que não devia existir, mas que metamorfoseia as coisas mais perigosas nas mais apetecíveis, como um abismo que pode engolir almas, mas que também abre horizontes que não se vislumbram em mais local nenhum... E surge em mim uma incessante inquietação saber que existes, que ofuscas qualquer outro ser que se assemelhe a ti, mas que não és mais do que um burburinho no mundo. Um burburinho insuportável para os meus pensamentos, que me distrai tão facilmente do quotidiano e perturba o silêncio dos meus sonhos. E como sabes que amo essa sensação insistes nela, criando uma obstinação que me faz detestar-te desta maneira fervorosa. E amar-te também.