Começo a perceber um bocado a atracção da maioria das mulheres por homens problemáticos, os "bad guys". Eu tenho tendência pelos bonzinhos e ou me calham gays ou homens divorciados e com filhas... Quando é que a vida se tornou tão... adulta? Bah.
18.6.20
9.6.20
8.6.20
Sigh...
Acho que não há medicação alguma que me tire os pesadelos durante a noite... Esta então, foram uns atrás dos outros...
3.6.20
ler devagar.
Enterro o pufe verde-ervilha no recanto mais solarengo da varanda. Desgastado não pelo passar dos anos, mas pela quantidade de furos que a Phoebe já fez, deixa-se abater no momento em que sente a aspereza do chão. Também o meu estado de espírito se sente lânguido. Com o maior zelo e delicadeza pego no livro emprestado e retomo a leitura. Ler ajuda a suportar tudo. Sempre ajudou. Deixo-me envolver em toda uma profusão de sinestesias que toda a experiência de leitura me proporciona para além da narrativa que, por si só, é incrível. Folheio cada página e subitamente estou no escritório do pai, o cheiro a tabaco embrenhado no papel remete-me para um local diferente que não este. Perscruto a minha atenção mais um pouco nas palavras de Marguerite. Enquanto isso reparo que a minha companhia felina se juntou a mim neste pacato lugar. Sorrio. Os extensos blocos de texto dactilografado transitam-me para tempos passados. É inevitável não interromper a leitura e ser avassaladoramente atacada com memórias nostálgicas de quem não volta mais. Os arrepios, talvez mais da saudade que do frio, trazem-me de volta à realidade e apercebo-me que o céu se tornou cinzento. Afasto as minhas memórias e agarro nas de Adriano. Desta vez procuro conforto no objecto mágico que é a antiga cadeira de baloiço recolhida dos esconsos esquecidos do sótão. E assim, na placidez da minha folga, me entretenho a percorrer o Império.
28.5.20
.
Vagueio lentamente e sem rumo pelo vazio. Vou-me camuflando em cada grão de areia, despercebido na solidão de um todo. A maresia ardente que rola pela minha face abaixo contrasta com a espuma branca e gélida que se aproxima dos meus pés a medo. O mar é sorrateiro a esta hora da noite, mas para ele também é inesperada a minha visita. Não necessito de comunicar para ele compreender a minha mágoa e, com os seus rugidos, encoraja-me a libertar este sufoco que aprisiono dentro de mim e que, dia após dia, asfixia cada vez mais a vontade de viver. Aconchego-me neste abraço de melancolia eterna e deixo que tome conta de mim. Não tenho mais ninguém. Não sei como cheguei até aqui, mas apercebo-me que entretanto me devo ter deixado levar pelo seu encanto marítimo, enquanto padecia dos meus pensamentos lúgubres. A ondulação recorda-me as oscilações incontroláveis e fascinantes da minha personalidade. De forma algo brusca enrosca-me a seu belo prazer pelos confins do oceano. Não pensei que pudesse ficar ainda mais escuro. Outrora iria sentir o pânico palpitar-me pelo corpo, a incentivar-me que desse o meu melhor. Hoje permito e assumo a derrota. Rendo-me porque já esgotei esforços em vão demasiadas vezes. Curiosamente o mar traz-me à tona. Talvez com pena. Mas o mais certo é querer prolongar-me o sofrimento, como tantos outros já o fizeram. Sustenho a respiração e flutuo naquele que será o meu último leito. De certa forma, temos algumas semelhanças: parecemos ter a eternidade em nós, mas existe sempre um fim.
26.5.20
farsa.
Que teatro, que fingimento, que falsidade! As personagens são dissimuladas em tudo, até ao mínimo respirar, ao insignificante piscar de olhos. As suas falas são puros momentos de calúnias compulsivas, motivadas por escândalos descomunais.
E são armadilhas, teias de rudeza tecidas por enormes aracnídeos da sociedade. Predadores de pequenos insectos que surgem neste mundo apenas com esse propósito. Serem comidos!
O tom da minha caligrafia acentua-se e agora observo que até a ponta da caneta consegue ter mais força para suportar o peso das minhas palavras. Palavras que cortam a pele mais delicada, confundem mentes débeis, atacam corações imperfeitos.
Cena após cena, a manipulação continua. No fim de todos os actos o público aplaude na sua ingenuidade, sem sequer desconfiarem do conteúdo escondido nas didascálias. Assim que a pesada cortina cai, é levantado o pó da realidade e, com ele, o choque da verdade. A irritabilidade por se ter caído nas manápulas do engano. A mágoa e desilusão por se ter confiado a vulnerabilidade própria num alguém desprezível. Infelizmente de farsas está a literatura repleta, esta será só mais uma a acumular...
14.5.20
27.
Com saudade, recordo o teu sorriso, espontâneo mas efémero. A correr descalça com cada grão de areia a espicaçar a planta dos teus pés. Sempre foste de sentir tudo no seu expoente máximo, com uma exactidão exagerada de sentimentos. Nessa pequena aldeia idílica repleta de genuinidade conseguias desbravar a criatividade que te possuía com pequenos teatros que faziam as delícias dos demais. Ingénua nas tuas fantasias recriavas múltiplas personalidades. Com a ferocidade desprecavida, trepavas muros, colinas, montanhas com o primo que te chegou a salvar da queda fatal. Rasgavas a pele a teu belo prazer e no momento seguinte dobravas-te no ser mais frágil e preenchias as feridas com camadas e camadas de protecção mascarada num lamento inocente. Já nessa altura gostavas de jogar pelo seguro nas tuas escolhas, mas a curiosidade levava-te sempre a degustar as restantes opções. Eras teimosa nas tuas convicções e escondias com engenho os óculos que te obrigavam a encarar a realidade com maior nitidez. Na confusão constante do teu recanto, permitias-te sonhar mais alto, com as nuvens no tecto, mas mantinhas os pés bem assentes, mirando pacientemente o percurso vagaroso do caracol pelos girassóis das tuas paredes. Volta e meia, a depressão abraçava-te e lavavas a alma passando os dedos pelas teclas iluminadas de vermelho-dor de Für Elise. Detinhas em ti toda a sensibilidade do mundo e partilhavas um carinho especial por aqueles cuja pele era mais enrugada que a tua. Ficavas compenetrada a ouvir as histórias antigas dos avós e imaginavas um futuro semelhante, profundo de romance e sofrido de sacrifício. Também te refugiavas nas páginas dos teus livros quando querias conviver com um alguém inexistente e permanecias inerte e surda para o exterior horas a fio. Já na altura eras um ser solitário, mas tinhas aptidão para te afeiçoares pelas pessoas certas como a melhor amiga que ainda hoje permanece com maior furor no teu coração. Fazias-te de forte com as histórias de terror que a prima te contava em noites partilhadas, mas eras preenchida por pesadelos constantes por causa do monstro disfarçado de pinheiro que viveu tantos anos em frente à tua casa, sem nunca te esmagar com os teus maiores receios. Aprendeste de forma dura as maiores lições de vida com o teu pai, mas que ainda hoje perduram nos teus valores humanos e recordas com um sorriso rasgado a trotinete que ele te fez, entre tantos outros afectos de maior consideração. Vias nos manos um exemplo a seguir, mas também uma constante luta para lhes chegares sequer aos calcanhares. À mãe, esse ser mais terno que te recolhia nos seus braços noite após noite quando fingias que adormecias no sofá, que te agarrou com a maior das forças quando te sentiu a escapar para a malícia do mundo, reconheces o amor incondicional que buscas incessantemente. Entre tantas outras ilusões, amarguras e obstáculos, tiveste a melhor infância que podias ter pedido e buscas nas memórias do passado as respostas para o futuro. Olhas para ti com uma oposição incrível, mas ainda assim com traços vincados e inalterados. Cresceste mas és assim, uma infinitude de universos.
3.5.20
26.4.20
Ainda da minha triste vida
O meu chefe (lol) marcou-me num daqueles desafios de partilhar 10 álbuns de música que goste e marcar mais 10 amigos. Por incrível que pareça é-me mais difícil arranjar as 10 pessoas que os álbums...
23.4.20
numa noite de inverno.
Sinto o carinhoso cambalear do carro e recosto-me. Entre as lágrimas cristalinas que rolam pelo vidro, perco-me no tracejado hipnótico do asfalto que acompanha os meus pensamentos isolados. A estrada envolta de obscuridade parece infinita, também ela sem saber para onde vai, apenas que tem de ir. Estou estranhamente desperta, ao oposto de todos os outros. Não sei há quanto tempo me encontro nesta viagem, as horas descarrilam em noites somadas. Noites que se perseguem umas atrás das outras sem qualquer alvor a interrompê-las. Persisto absorta entre reflexos e sombras. A luz decadente dos cadeeiros confere ao interior do carro um ar sinistro de formas abstractas que interagem de maneira absurda com o meu subconsciente. Subitamente o meu lamento interno é rasgado por um ruído estrondoso. Um carro que ultrapassa. Concentro-me na ilusão das suas rodas, sem conseguir confrontar quem se encontra no interior. Julguei que todos dormiam. O silêncio adensa e retorno à solidão que me é intrínseca. O vidro enregelado desencadeia cicatrizes de arrepios pelos braços acima e aconchego-me ainda mais neste abraço vazio. O dilúvio exacerbado deforma com violência o exterior, desfocando o meu olhar e, por conseguinte, a minha mente. Talvez o destino esteja próximo, no entanto permaneço à deriva sem existir tempo que o dite. O percurso continua, mas assombra-me a ideia que talvez esteja apenas estagnada neste sítio. Olho inquisitivamente para o lugar do condutor, com algum receio de que tenha cedido à fadiga. O que vejo é apenas nevoeiro do outro lado.
22.4.20
Pronto, é oficial.
Atingi o meu pico de inutilidade nesta quarentena: instalei o bumble pela primeira vez. *Biggest facepalm on earth*
21.4.20
Bad day.
Hoje foi um dia intenso... A primeira vez que perdi alguém da minha idade foi absolutamente avassalador. Ainda me sinto confusa quanto ao que sinto para além da tristeza óbvia. Tudo isto fez-me reflectir sobre mil e uma coisas e deparar-me com mil e uma perspectivas. Mais do que nunca só me apetece ter um abraço dos meus pais, a saudade torna-se cada vez mais inconcebível...
19.4.20
Da gastronomia saudosista.
E pensava eu que durante este mês de isolamento a minha saúde mental até estava muito bem dadas as circunstâncias... Até ao momento em que os meus vizinhos do lado decidiram cozinhar memórias. Ontem foram pipocas que juro que cheiravam exactamente ao mesmo que as do cinema do Porto onde fui a última vez com os meus irmãos; Hoje o cheiro que vem de lá é o mesmo que emanava do bar da secundária quando havia panikes acabadinhos de fazer! Ai.
18.4.20
Ainda sobre o corona e a minha triste vida:
Parece um dejá vù aos tempos de adolescência em que em vez de sair, fazer amigos, etc. ficava horas intermináveis a ler e a minha vida social ficava-se pelas personagens inventadas dos livros...
10.4.20
...
O mais triste desta quarentena é aperceber-me que a minha vida não mudou tanto quanto isso... Basicamente só não vou trabalhar nem vejo a minha família, o resto é exactamente igual...
8.4.20
27.3.20
Everyday is silent and grey.
De súbito, a aurora dilacera-me. A minha cabeça lateja sem cessar um dia que seja. Recordo com curiosidade e alguma saudade todos os sonhos que me envolveram enquanto os olhos me trancavam da realidade. Abstracções umas atrás das outras, sinto-me perdida no fascínio e anseio voltar para a minha utopia. Ouço a gata a arranhar o novo dia e sei que tenho que fazer o mesmo. Rendo-me à minha rotina pois sem ela ainda é mais difícil concentrar-me nesta árdua missão de acordar. Apesar de tudo, de manhã é quando sinto mais energia ao contrário de outrora, em que as únicas forças que me pertenciam eram concentradas na vontade de não existir.
Contudo, no decorrer do dia, sinto-me a desvanecer. Um ardor no olhar persegue-me continuamente, desejo com intensidade voltar à penumbra para não ter fazer este esforço hercúleo de manter os olhos abertos. A realidade à vista. O meu coração balança com a precaução de uma criança a andar de baloiço pela primeira vez, no entanto, perde-se numa confiança exasperada ao mínimo movimento que faço.
Lá está ele outra vez. O pôr-do-sol. Todos os dias tenho finais novos. Por vezes, tímido, vai espreitando entre nuvens. Outras apresenta-se em todo o seu fulgor e luminescência. Não tenho preferência pelo seu visual, apenas quero acompanhar o seu desaparecer. Lento e rápido em simultâneo, tão supérfluo para todos, mas deixando saudade no seu rasto. Tal como o meu.
26.3.20
1.
Teresa sentia-se frequentemente só. Viúva e com a família distante, vivia os seus dias de reforma a cuidar das orquídeas que coleccionava e de que tanto gostava. Nutria por elas um grande carinho e era com dedicação afincada que tomava conta de seres tão frágeis. Ainda assim, sentia o peso da solidão. Apesar dos prolongados 67 anos de vida, ainda sentia uma força jovial dentro de si e sabia que não podia desperdiçar tal privilégio confinada entre aquelas paredes rugosas. Obrigava-se a sair todas as manhãs para comprar o jornal, ritual que mantinha mesmo depois de o marido falecer. Era com ele que partilhava sempre as notícias não muito interessantes da terra pacata em que viviam. Valorizava muito as suas manhãs, de janela escancarada, a sorver o café quente e a sentir o papel áspero do jornal.
Num dia vulgar como todos os outros, após cumprir a sua rotina matinal, deu consigo a olhar para um anúncio em particular. Uma palavra incompreensível, possivelmente estrangeira, prendera-lhe a atenção. Uber. Depois de entender do que se tratava, apercebeu-se que era exactamente aquilo que lhe faltava na sua existência. Não tanto pelo dinheiro, pois a reforma e o que o marido lhe deixara eram suficientes até ao fim dos seus dias, mas sim pela vontade colossal de estar com pessoas. Não via qualquer obstáculo a tal possibilidade: era moderna e sabia desenrascar-se bem com a tecnologia actual, além disso adorava conduzir o seu citroën cor de musgo e conhecia bem a localidade e os seus arrabaldes. Desta feita, com algum entusiasmo e fervor, decidiu inscrever-se.
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