Vagueio lentamente e sem rumo pelo vazio. Vou-me camuflando em cada grão de areia, despercebido na solidão de um todo. A maresia ardente que rola pela minha face abaixo contrasta com a espuma branca e gélida que se aproxima dos meus pés a medo. O mar é sorrateiro a esta hora da noite, mas para ele também é inesperada a minha visita. Não necessito de comunicar para ele compreender a minha mágoa e, com os seus rugidos, encoraja-me a libertar este sufoco que aprisiono dentro de mim e que, dia após dia, asfixia cada vez mais a vontade de viver. Aconchego-me neste abraço de melancolia eterna e deixo que tome conta de mim. Não tenho mais ninguém. Não sei como cheguei até aqui, mas apercebo-me que entretanto me devo ter deixado levar pelo seu encanto marítimo, enquanto padecia dos meus pensamentos lúgubres. A ondulação recorda-me as oscilações incontroláveis e fascinantes da minha personalidade. De forma algo brusca enrosca-me a seu belo prazer pelos confins do oceano. Não pensei que pudesse ficar ainda mais escuro. Outrora iria sentir o pânico palpitar-me pelo corpo, a incentivar-me que desse o meu melhor. Hoje permito e assumo a derrota. Rendo-me porque já esgotei esforços em vão demasiadas vezes. Curiosamente o mar traz-me à tona. Talvez com pena. Mas o mais certo é querer prolongar-me o sofrimento, como tantos outros já o fizeram. Sustenho a respiração e flutuo naquele que será o meu último leito. De certa forma, temos algumas semelhanças: parecemos ter a eternidade em nós, mas existe sempre um fim.
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