Com saudade, recordo o teu sorriso, espontâneo mas efémero. A correr descalça com cada grão de areia a espicaçar a planta dos teus pés. Sempre foste de sentir tudo no seu expoente máximo, com uma exactidão exagerada de sentimentos. Nessa pequena aldeia idílica repleta de genuinidade conseguias desbravar a criatividade que te possuía com pequenos teatros que faziam as delícias dos demais. Ingénua nas tuas fantasias recriavas múltiplas personalidades. Com a ferocidade desprecavida, trepavas muros, colinas, montanhas com o primo que te chegou a salvar da queda fatal. Rasgavas a pele a teu belo prazer e no momento seguinte dobravas-te no ser mais frágil e preenchias as feridas com camadas e camadas de protecção mascarada num lamento inocente. Já nessa altura gostavas de jogar pelo seguro nas tuas escolhas, mas a curiosidade levava-te sempre a degustar as restantes opções. Eras teimosa nas tuas convicções e escondias com engenho os óculos que te obrigavam a encarar a realidade com maior nitidez. Na confusão constante do teu recanto, permitias-te sonhar mais alto, com as nuvens no tecto, mas mantinhas os pés bem assentes, mirando pacientemente o percurso vagaroso do caracol pelos girassóis das tuas paredes. Volta e meia, a depressão abraçava-te e lavavas a alma passando os dedos pelas teclas iluminadas de vermelho-dor de Für Elise. Detinhas em ti toda a sensibilidade do mundo e partilhavas um carinho especial por aqueles cuja pele era mais enrugada que a tua. Ficavas compenetrada a ouvir as histórias antigas dos avós e imaginavas um futuro semelhante, profundo de romance e sofrido de sacrifício. Também te refugiavas nas páginas dos teus livros quando querias conviver com um alguém inexistente e permanecias inerte e surda para o exterior horas a fio. Já na altura eras um ser solitário, mas tinhas aptidão para te afeiçoares pelas pessoas certas como a melhor amiga que ainda hoje permanece com maior furor no teu coração. Fazias-te de forte com as histórias de terror que a prima te contava em noites partilhadas, mas eras preenchida por pesadelos constantes por causa do monstro disfarçado de pinheiro que viveu tantos anos em frente à tua casa, sem nunca te esmagar com os teus maiores receios. Aprendeste de forma dura as maiores lições de vida com o teu pai, mas que ainda hoje perduram nos teus valores humanos e recordas com um sorriso rasgado a trotinete que ele te fez, entre tantos outros afectos de maior consideração. Vias nos manos um exemplo a seguir, mas também uma constante luta para lhes chegares sequer aos calcanhares. À mãe, esse ser mais terno que te recolhia nos seus braços noite após noite quando fingias que adormecias no sofá, que te agarrou com a maior das forças quando te sentiu a escapar para a malícia do mundo, reconheces o amor incondicional que buscas incessantemente. Entre tantas outras ilusões, amarguras e obstáculos, tiveste a melhor infância que podias ter pedido e buscas nas memórias do passado as respostas para o futuro. Olhas para ti com uma oposição incrível, mas ainda assim com traços vincados e inalterados. Cresceste mas és assim, uma infinitude de universos.
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