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23.10.17

quinze de outubro de dois mil e dezassete.

A pior noite da minha vida. Aquela que eu cheguei a pensar que seria a última. Nesse fim-de-semana calhou nenhum dos meus irmãos vir a casa, o meu pai que canta no Coral de Sant'Ana tinha ido para um encontro de coros em Aveiro. Em casa permanecíamos apenas eu e a minha mãe, após um GNR nos dizer que estaríamos seguras na mesma... Em constante frenesim sempre a subir e descer escadas, em constante vigia, esta foi a última fotografia que tirei às 19h28: 

As chamas aproximavam-se do nosso terreno a uma velocidade estonteante ajudadas pelo vento tempestuoso propício do furacão Ophelia que varria o nosso país nesse domingo. Gritei para a minha mãe que tínhamos que fugir e nesse preciso momento o céu iluminou-se ainda mais com uma série de explosões. Fomos chamar o vizinho que esgotava forças ao tentar salvar a sua casa e fugimos todos. Voltar para a nossa cidade era impossível, o próprio GNR que há umas horas nos tinha aconselhado já não se encontrava no seu posto. Virámos então no sentido oposto em direcção a Seia. Pelo caminho encontrámos familiares entre outras caras conhecidas, caras essas em pânico e desespero. Na Nacional 17 entre a Chamusca da Beira e a Póvoa das Quartas ficámos parados cerca de duas horas, nós entre dezenas de carros dispersos por 5 filas paralelas numa estrada com apenas duas vias. Ficámos parados com fogo de todas as partes. Atrás de nós permanecia Oliveira do Hospital consumido em chamas e botijas de gás a explodirem. À nossa frente estava Torroselo na mesma situação. Duas horas de profunda agonia e uma derrota segura, à espera que o pior fim chegasse a qualquer minuto. De repente passa um jipe da GNR vindo de Oliveira do Hospital, a toda a velocidade, a berrar com todas as forças:"venham atrás, fujam!". Os bombeiros encontravam-se mais à frente a fazer um esforço por regar ambas as bermas da estrada de maneira a todos os carros conseguirem sair dali. Ainda hoje não sei como não houve um acidente ali, tal era a quantidade de carros, de fumo, de chamas, de postes e árvores a ameaçar cair a qualquer momento. Já não me lembro que horas seriam quando chegámos ao parque de estacionamento do Continente de Seia, mas foi onde ficámos a recuperar do susto, apesar de à nossa frente continuarmos a ver a Serra da Estrela a ser completamente devorada. Lembro-me de ter tentado telefonar para número de casa e ao não dar sinal sentir que tinha perdido tudo. No entanto, tal como tudo naquela noite, também as comunicações tinham sido afectadas. Uma família de cinco em que ninguém sabia de ninguém e todos temíamos o pior. De madrugada, possivelmente duas ou três da manhã, duas raparigas bateram à janela do nosso carro. Andavam à procura de pessoas que tivessem fugido e precisassem de abrigo. Fomos encaminhadas para o pavilhão gimnodesportivo de São Romão onde assim que chegámos nos deram água e comida, registaram os nossos nomes, moradas e contactos. Tínhamos à nossa disposição colchões com cobertores, comida, bebida e muito apoio de protecção social, enfermeiros, psicólogos e muitas outras pessoas. Aos poucos íamos conseguindo comunicar com outras pessoas de fora e ir sabendo do estado da nossa cidade. Os meus padrinhos num acto de extrema coragem tinham ido às 4h da manhã até nossa casa, sem luz e com um fumo irrespirável, apagar chamas que consumiam aos poucos o meu lar e o dos vizinhos. De manhã consegui falar com o meu pai, que entretanto já tinha chegado a Oliveira e tinha ido a nossa casa. Garantiu-me que estava tudo bem, tanto ele, como a casa, como os animais. Por volta do meio-dia a GNR garantiu-nos que já era seguro regressar, no entanto, não nos deixaram sair sem que comêssemos uma refeição quente que nos prepararam. Assim que chegámos, abracei o meu pai com forças que não sabia ainda ter. Até àquele momento, apesar de tudo, não tinha tido ainda um momento de fraqueza como tive ao ver todo aquele cenário negro. Apesar de ter a minha casa praticamente como a deixei, tudo à volta era lastimável. Chorei como se tivesse perdido alguém e, de certa forma, perdi. Perdi todo o verde que existia, perdi toda a natureza que me preenchia de alegria, todas as árvores e flores, todos os pássaros com quem eu muitas vezes tentava comunicar, todo aquele meio circundante que me acompanhou ao longo de 24 anos. Mais tarde descobri uma gata vadia que tinha queimado as patas, o focinho e até a língua. Mais tarde descobri que tínhamos perdido um familiar que tentara fugir, tal como eu e a minha mãe fizemos... Não há palavras para descrever tudo o que aconteceu há uma semana atrás e, infelizmente, posso afimar que só quem passou por aquilo que passámos poderá compreender todo o sofrimento que paira sobre Oliveira do Hospital. Para além de ser uma cidade negra pelas cinzas, é uma cidade negra por todas as fábricas e casas que arderam, é uma cidade negra por tristeza de todas as pessoas que perderam emprego, casa, bens, animais. E acima de tudo, é uma cidade negra por todo o luto que se faz pelas vidas humanas que se perderam. 
Este é o meu testemunho daqueles que foram os piores dias da minha vida, por causa do incêndio de quinze de outubro de dois mil e dezassete em Oliveira do Hospital.

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