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16.4.16

em abril, lágrimas mil.

Ainda nem uma hora tinha passado desde que tinha chegado à biblioteca. Já tinha requisitado os livros que precisava e estava no meu lugar com o computador ligado e os apontamentos do relatório do estágio ao lado. Liguei a soundtrack do 5 cm por second, abri o word e comecei a escrever. Ainda só ia no segundo parágrafo quando recebi uma chamada do meu irmão mais velho. Desliguei-lha e mandei-lhe uma sms a dizer que estava sozinha na biblioteca e não podia atender, se era muito importante. Ele disse que sim. Levantei-me e dirigi-me à saída da biblioteca para lhe telefonar sem incomodar ninguém. Não foi preciso, ele estava ali. "Olha, é a avó...". Não foi preciso mais nada, dirigi-me de volta à minha secretária, arrumei tudo tentando conter a tremenda tristeza que sentia naquele momento. Assim que saí da biblioteca e senti o ar gelado bater-me na cara, desatei a chorar. Fui a chorar todo o caminho de Aveiro até Coimbra. Abracei a minha mãe com a força de quem nunca a quer perder como ela tinha acabado de perder a dela.
Na capela recebi as condolências de diversas pessoas, tanto familiares como amigos. O caixão permaneceu sempre fechado e fiquei agradecida por assim ser, relembrando o choque em que tinha ficado quando, na vez do meu avô, eu mal aguentei assim que abriram o caixão dele e toda a expressão dele era oposta à que lhe conheci toda a vida. Preferi guardar na memória como me despedi dela com um beijinho na testa quando a tinha ido ver pela última vez ao hospital, três dias antes e me tinham dito que ia ter alta... Preferi guardar todas as vezes que me fez sorrir ao longo dos meus quase 23 anos, com banhos no alguidar no terraço, passeios por Sacões, conversas saudosistas do tempo dela, entre muitos outros momentos que irei relembrar sempre.
A noite de terça para quarta foi terrível. Dormi na cama dela, cá em baixo. No andar de cima estavam todos: os meus pais, os meus irmãos e a minha madrinha. Quis ficar sozinha, mas não preguei olho a noite toda. Doía-me terrivelmente a cabeça e sentia-me enjoada. Às 7h da manhã a minha mãe teve que ir a uma farmácia comprar comprimidos para todos nós, mais ninguém conseguia dormir. Descansei brevemente das 7h às 9h e voltei para a Capela. Uma senhora amiga da minha avó veio dar-me os sentimentos e, talvez numa tentativa de me fazer sentir melhor, disse-me que a minha avó me adorava e que tinha chorado muito há 5 anos quando optei por ir estudar para Aveiro e não ficar em Coimbra com ela. Fiquei transtornada, chorei imenso. A minha madrinha reparou e tirou-me dali. Levou-me à Almedina (um pouco contra a minha vontade pois eu queria estar na Capela, junto da minha mãe) e comprou-me um livro de Albert Camus. Voltámos, estava quase a ser a missa. 
Entrou um padre bastante velhinho e começou a falar. Nunca gostei muito de missas, especialmente neste contexto, são sempre as mesmas palavras, sempre o mesmo ambiente pesado de morte. Esta foi diferente. O padre citou escritores como Pessoa e Torga e nesses momentos, senti que eram mais palavras do meu Avô que de Deus. O padre nunca falou em morte, falou sempre em viagem pascal ao reencontro de quem já tinha ido. Nunca falou em despedida, mas sim num até já. De certa forma, as palavras dele foram reconfortantes e sem a conotação infeliz que uma missa de funeral tem sempre. Seguimos para Viseu. Nunca tinha assistido a uma cremação, mas sempre foi este o desejo da minha avó. Entrámos na sala da despedida onde já estava o caixão. Três paredes brancas e a que dava acesso à sala do forno tinha uma paisagem verde, bastante calma e pacífica. Assim que abriram essa parede, comecei a perder o controlo de mim mesma e as lágrimas começaram a escorrer de forma inesperada mas angustiante. Apenas um pensamento me veio à cabeça. Era isto que ela queria. Fui forte e dei o braço à minha mãe que, apesar de tudo se encontrava serena. Ela e o meu tio tinham optado por não ficarem com as cinzas e, no fim, o senhor do crematório veio perguntar-nos se queríamos ver o sítio onde as cinzas iam ficar. Ficámos surpreendidos e, de certa forma tranquilos, ao vislumbrar um pedaço relvado com uma pedra de mármore gravada com "Jardim das Memórias" e um pequeno buraco onde por cima ia levar todas as flores que lhe foram postas na Capela.
Apesar de não estar mais fisicamente comigo, daqui para a frente ia continuar cada vez em mais sofrimento devido às doenças e apesar de ter custado vê-la partir, ia custar ainda mais vê-la aqui a sofrer. Restam as memórias e todos os ensinamentos e experiências que me foi proporcionando desde pequena, todos os traços de personalidade que directa ou indirectamente influenciou em mim. Partiu, mas ficará para sempre em mim e em cada um que conviveu com ela. Não é um adeus, é um até já.

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