Páginas

20.3.15

nostalgia.

A música ressoava na imensidão daquele quarto, daquela divisão que não lhe pertencia. Um espaço tão vazio quanto o interior da sua alma. Não sabia tocar piano, mas a luz vermelha das teclas guiava-a por uma melodia que lhe era demasiado familiar, demasiado triste, demasiado íntima. Sabia de cor cada nota, mesmo sem saber a sua designação, sabia o seu significado, o seu tom e isso bastava-lhe. A efemeridade do som transportava em si memórias imbuídas de passados cansados e deturpados. As imagens cruzam-se nos seus olhos diluídas em lágrimas que são como ondas que não podem ser paradas. O som chega ao fim, mas ela continua a tocar. Não há fim... O preto e o branco confundem-se nos seus dedos, conforme os sentimentos se misturam dentro de si. Alguém a ouve do lado de fora e depreende a mensagem. A música tornou-se no labirinto em que ela se tenta encontrar e perder ao mesmo tempo e algo tão indecifrável não pode ser interrompido senão por ela. No entanto, as suas mãos persistem emaranhadas num som que nunca será desafinado, num som que chega ao fim, mas que nunca dará origem ao silêncio.


Ao som da música do post anterior. Ao som de memórias perdidas no passado, encontradas no presente.

Sem comentários: